Para Refletir

Sujeitos Ocultos

9 Sep 2014

— Professora, eu não acredito que a senhora esteja defendendo aquele corrupto!

— De jeito nenhum, Augusto. Afirmar que não podemos condenar uma pessoa apenas por causa da denúncia veiculada pela mídia, não é defender corrupto, ao contrário! E menos ainda, nesse caso. Uma denúncia vinda de uma pessoa que está presa por corrupção. Nos países mais democráticos uma revista ou TV que divulgasse uma informação, assim, sem provas, teria que se ver com a Justiça.

O assunto da aula ficou em segundo plano na classe de pré. As denúncias de corrupção na Petrobrás ganharam a atenção de todos.

— Vai dizer que você é a favor de censurar a imprensa?

— Não! Sou a favor de uma imprensa que preste serviços à sociedade e não aos interesses dos seus proprietários, como acontece no Brasil. Você tem noção do absurdo que é a maneira como a mídia destrói reputações sem a menor preocupação com provas? Torça para não estar na relação, porque você não seria acusado, mas culpado antecipadamente.

— Eu sou honesto. Não preciso me preocupar com isso! Mas esse cara é candidato a governador e já tem história de corrupção. Lembra que ele deixou de ser vice de Serra por causa de uma denúncia de que tinha uma fortuna não declarada de US$ 15 milhões no exterior? Lembra que ele usou o avião da FAB para levar amiguinhos para assistir a um jogo da seleção?

A professora sorriu satisfeita pelo nível da intervenção:

— Parabéns por ser tão bem informado. Mas observe: ambos concordamos com o combate à corrupção. Tenho a mesma revolta íntima que você. Você sabe que nem voto neste senhor pelos mesmo motivos que você. A diferença é que não concordo em condenar uma pessoa sem provas. Será que é tão difícil entender que aceitando essa condenação antecipada estaremos aceitando também que os donos da mídia continuem manipulando a sociedade segundo os seus interesses políticos? A corrupção na política não é menos danosa quanto à corrupção na mídia.

O aluno não queria tratar de corrupção na mídia naquele momento.

— Professora! O foco agora são as eleições e a imprensa está cumprindo o papel de denunciar esse corrupto.

— Posso lhe garantir que não é apenas isso. O que está por trás de mais esse circo da imprensa, são os interesses da mídia que se tornou um partido político. Eles não estão interessados em moralizar nada. Se a ética fosse o objetivo o caso do metrô de São Paulo teria sido investigado em profundidade. E os 450 quilos de pasta de cocaína encontrados num helicóptero de amigos de Aécio? Cadê a imprensa? Aliás, a sonegação de imposto da Rede Globo equivale a 30 mensalões e não vejo ninguém dizer nada sobre isso.

A conversa foi interrompida pelo sinal de fim de aula. Os alunos debandaram imediatamente, inclusive Augusto que saiu pensativo, mas ainda sisudo. A professora fitou as cadeiras vazias enquanto organizava o material da aula e deu um leve sorriso. Vontade danada de chutar o balde igual a Augusto e esculhambar todo mundo. Mas sondando a consciência, ela sabia que seu papel era gerar reflexão e auxiliar a ampliar a visão dos seus alunos. Por hora, a missão estava cumprida e ela precisava se apressar para pegar o ônibus. Àquela hora as paradas estavam cheias…

(Leilton Lima)343280

 

Sujeitos Ocultos

9 Sep 2014

— Professora, eu não acredito que a senhora esteja defendendo aquele corrupto!

— De jeito nenhum, Augusto. Afirmar que não podemos condenar uma pessoa apenas por causa da denúncia veiculada pela mídia, não é defender corrupto, ao contrário! E menos ainda, nesse caso. Uma denúncia vinda de uma pessoa que está presa por corrupção. Nos países mais democráticos uma revista ou TV que divulgasse uma informação, assim, sem provas, teria que se ver com a Justiça.

O assunto da aula ficou em segundo plano na classe de pré. As denúncias de corrupção na Petrobrás ganharam a atenção de todos.

— Vai dizer que você é a favor de censurar a imprensa?

— Não! Sou a favor de uma imprensa que preste serviços à sociedade e não aos interesses dos seus proprietários, como acontece no Brasil. Você tem noção do absurdo que é a maneira como a mídia destrói reputações sem a menor preocupação com provas? Torça para não estar na relação, porque você não seria acusado, mas culpado antecipadamente.

— Eu sou honesto. Não preciso me preocupar com isso! Mas esse cara é candidato a governador e já tem história de corrupção. Lembra que ele deixou de ser vice de Serra por causa de uma denúncia de que tinha uma fortuna não declarada de US$ 15 milhões no exterior? Lembra que ele usou o avião da FAB para levar amiguinhos para assistir a um jogo da seleção?

A professora sorriu satisfeita pelo nível da intervenção:

— Parabéns por ser tão bem informado. Mas observe: ambos concordamos com o combate à corrupção. Tenho a mesma revolta íntima que você. Você sabe que nem voto neste senhor pelos mesmo motivos que você. A diferença é que não concordo em condenar uma pessoa sem provas. Será que é tão difícil entender que aceitando essa condenação antecipada estaremos aceitando também que os donos da mídia continuem manipulando a sociedade segundo os seus interesses políticos? A corrupção na política não é menos danosa quanto à corrupção na mídia.

O aluno não queria tratar de corrupção na mídia naquele momento.

— Professora! O foco agora são as eleições e a imprensa está cumprindo o papel de denunciar esse corrupto.

— Posso lhe garantir que não é apenas isso. O que está por trás de mais esse circo da imprensa, são os interesses da mídia que se tornou um partido político. Eles não estão interessados em moralizar nada. Se a ética fosse o objetivo o caso do metrô de São Paulo teria sido investigado em profundidade. E os 450 quilos de pasta de cocaína encontrados num helicóptero de amigos de Aécio? Cadê a imprensa? Aliás, a sonegação de imposto da Rede Globo equivale a 30 mensalões e não vejo ninguém dizer nada sobre isso.

A conversa foi interrompida pelo sinal de fim de aula. Os alunos debandaram imediatamente, inclusive Augusto que saiu pensativo, mas ainda sisudo. A professora fitou as cadeiras vazias enquanto organizava o material da aula e deu um leve sorriso. Vontade danada de chutar o balde igual a Augusto e esculhambar todo mundo. Mas sondando a consciência, ela sabia que seu papel era gerar reflexão e auxiliar a ampliar a visão dos seus alunos. Por hora, a missão estava cumprida e ela precisava se apressar para pegar o ônibus. Àquela hora as paradas estavam cheias…

(Leilton Lima)343280

 

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